Antonio Penteado Mendonça
Antonio Penteado Mendonça

Academia Paulista de Letras, advogado, sócio de Penteado Mendonça Advocacia, professor da FIA-FEA/USP e do PEC da Fundação Getúlio Vargas.

SEGUROS - O DEPOIS SERÁ MUITO COMPLICADO

Em artigo primoroso, o professor José Pastore colocou com rara felicidade o que está acontecendo e quais serão as consequências da pandemia do coronavírus na vida brasileira. 10 de Julho de 2020

Em artigo primoroso, o professor José Pastore colocou com rara felicidade o que está acontecendo e quais serão as consequências da pandemia do coronavírus na vida brasileira. É um retrato triste, cuja realidade necessita ser enfrentada com todas as armas à disposição da nação e com a transparência indispensável para a população não se sentir traída e abandonada, sob risco de, em não o fazendo, a situação nacional se deteriorar ainda mais.

Não há a menor chance de se reverter o quadro dramático da crise de 2020. O ano será um dos piores da história brasileira em todos os tempos. A situação é devastadora para milhares de empresas que já fecharam as portas e será ainda mais complicada para outros milhares que fecharão ao longo do ano e mesmo no ano que vem. É inexorável e não há ferramenta que possa reverter o quadro. Nunca o Brasil passou por momento tão complexo, social e economicamente. O fechamento dessas empresas está gerando o desemprego de milhões de pessoas com carteira assinada, mas, ainda mais grave, está deixando milhões de pessoas que trabalham na informalidade sem ocupação capaz de garantir-lhes o ganha pão.

Dado trágico é que a maioria dos informais que vão perdendo seus trabalhos são mulheres. Não bastasse todas a dificuldades decorrentes da pandemia, a começar pela violência doméstica e seus derivados, milhões de mulheres que são arrimos de seus filhos não estão conseguindo faturar o mínimo indispensável para manter suas famílias.

Outro dado preocupante é que, com o fechamento das empresas, centenas de milhares de pessoas da classe média devem migrar para classe sociais mais baixas e, como são profissionalmente qualificados, a frustração com a mudança de patamar deve agravar os problemas decorrentes da perda de emprego.

Ainda no campo social, o número de moradores de rua tende a continuar crescendo, aguçando o problema e exigindo mais das prefeituras, que estarão sem caixa para fazer frente aos inúmeros desafios que se colocam à sua frente.

O fechamento das empresas gera o esvaziamento e a deterioração pela falta de manutenção dos imóveis até recentemente ocupados. Em complemento a isso, o isolamento social e o trabalho em home office mostram que as necessidades de espaço em imóveis comerciais são muito menores do que o usualmente praticado antes da pandemia.

O resultado pode ser visto nos avisos de grandes empresas que estão redesenhando suas operações para que seus colaboradores continuem trabalhando de casa, com a consequente devolução de lajes inteiras em edifícios de ponta, que já apresentam alta metragem de espaços ociosos.

Em algum momento, a pandemia deve arrefecer. Se bem que, em função do descaso do Brasil em relação às medidas para enfrentá-la, pode acabar sendo criado um fato novo, qual seja, a incorporação do coronavírus de forma crônica na vida nacional.

O cenário desenhado pelo professor José Pastore, aqui apresentado de forma bastante resumida, levanta uma questão crucial e que necessita ser enfrentada o mais rapidamente possível. Como fazer para sair da crise? Quais as medidas e ações a serem implantadas para o país retomar seu crescimento, saindo de uma base extremamente deprimida e com pouca capacidade de reação?

A resposta ainda é completamente desconhecida e qualquer opinião sobre ela é apenas um palpite. O que é certo é que, num universo em franca recessão, com pouca capacidade de reação e sem recursos para fazer frente ao cotidiano de uma imensa massa de pessoas, o setor de seguros não deve esperar a rápida retomada de seu crescimento.

E a situação de algumas seguradoras, além da queda de faturamento puxada pela queda brutal da atividade econômica, deve se agravar mais, em função das taxas de remuneração dos investimentos estarem próximas de zero, especialmente no que diz respeito aos títulos públicos, com os quais elas devem constituir suas reservas.

Como fazer para tocar em frente? Essa a resposta de um milhão de dólares e cada empresa tem que encontrar a sua, levando em conta sua realidade e seu potencial.