
Sócio de Penteado Mendonça e Char Advocacia e Presidente da Academia Paulista de Letras
UM AUXÍLIO RELEVANTE
O negócio de uma seguradora é aceitar riscos e, quando for o caso, pagar as indenizações decorrentes dos eventos cobertos que causem prejuízos aos seus segurados. 21 de Março de 2025O negócio de uma seguradora é aceitar riscos e, quando for o caso, pagar
as indenizações decorrentes dos eventos cobertos que causem prejuízos aos seus
segurados. Para isso, a seguradora gerencia um fundo composto pelo preço pago
proporcionalmente ao risco de cada um pelos seus segurados. Para calcular o
preço do seguro a seguradora se vale de tabelas atuariais e estatísticas, que
lhe dão os parâmetros puros (ou sem carregamento) para precificar suas
apólices. Sobre este preço puro, a seguradora lança as variáveis de cada
segurado, agravando ou desagravando o preço, de acordo com cada risco
apresentado, e assim definindo o preço de cada seguro comercializado.
A forma de verificar o desempenho de uma seguradora é através do
resultado do seu underwriting, ou subscrição dos riscos. O máximo que a
seguradora obtém ao comercializar um seguro é o preço deste seguro, que, no
caso, corresponde a cem pontos. Destes cem pontos a seguradora abate um
determinado número de pontos para os sinistros, outro para as despesas
comerciais, outro para as despesas operacionais, para os custos com resseguros
e impostos. Se esta conta der menos do que cem, a seguradora está ganhando dinheiro
no negócio puro, com a aceitação de riscos, sem outra influência, senão a
precificação de suas apólices. É o resultado industrial, que nem sempre é fácil
de ficar no positivo. Mas a seguradora tem outra ferramenta para incrementar
seu resultado: a aplicação de seus ativos no mercado financeiro.
Uma companhia de seguros é uma gestora de fundos mobiliários, compostos
pelo preço da venda das apólices de suas diferentes carteiras de seguros. Cada carteira
tem uma conta específica, destinada a não misturar riscos diferentes e
resultados diferentes. Incêndio é incêndio, automóvel é automóvel, roubo de
celular é roubo de celular etc. Cada risco tem particularidades próprias, que
não permitem que sua precificação e gestão de indenizações sejam feitas num
único e enorme bolo, misturando todos os seguros aceitos. Não é assim que
funciona. Mas a aplicação destes recursos pode e deve ser feita dentro de uma
visão de conjunto, levando em conta as diferentes tipicidades de cada negócio,
começando pela frequência e valor médio das indenizações. Sabendo isso, a
seguradora vai a mercado e aplica seus enormes recursos, obtendo
invariavelmente uma taxa de remuneração acima da média. Estes recursos são
utilizados para completar o resultado industrial e muitas vezes mudam para
melhor o desempenho da companhia, que, no resultado operacional (a soma do
resultado industrial com a remuneração do capital), consegue reverter um
eventual prejuízo gerado pela aceitação pura dos riscos. Este resultado fica
melhor cada vez que a seguradora consegue uma remuneração mais alta para suas
aplicações.
Neste sentido, no cenário atual, com a taxa Selic acima de 12% ao ano e
com expectativa de chegar a 15% em dezembro, as seguradoras estão sendo
francamente favorecidas pela política de juros altos praticadas pelo Banco
Central para tentar conter a inflação.
As seguradoras que têm uma gestão eficiente, com o underwriting
positivo, terão um lucro extra, que pode ser usado para turbinar o resultado ou
até para reduzir o preço de suas apólices e aumentar o número de segurados. E
as que não têm um desempenho tão eficiente podem melhorar seus balanços, somando
o extra decorrente dos juros altos ao seu resultado final e assim melhorar um
desempenho que com juros baixos não seria tão bom.